Way Over Yonder

Tempos difíceis, hein?! Daqueles de perder referencial, de não enxergar horizonte. Escapa-se como pode e onde pode. Eu encontrei refúgio nos livros. Nos livros, principalmente, melhor dizendo. Criei uma meta e dobrei a meta. Aderi ao desafio do Goodreads. Escrevo microrresenhas e publico. Um livro atrás do outro; mais de quarenta, só este ano. Aliás, me comprometi a ler uma quantidade que não li nem na faculdade. Se bobear, nem na vida, somando tudo. Exagero, talvez. Acontece que, até então, não precisei contar.
Um mergulho necessário, bem como a alienação a que ele me permite. Lendo Valter Hugo Mãe, por exemplo, me deparei com uma definição redonda para este período: “Os livros eram ladrões. Roubavam-me do que nos acontecia. Mas também nos eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia.” Está em A Desumanização, curiosamente. Carole King para complementar.

 

Way over yonder is a place I have seen
In a garden of wisdom from some long ago dream
May be tomorrow I’ll find my way

To the land where the honey runs in rivers each day
And the sweet tastinggood life is so easily found
Way over yonder – that’s where I’m bound

Don’t Stop

Outro dia, em uma conversa entre amigos, disse que me fazia mal demais as coisas que não posso resolver. Aquelas que estão além de minha decisão. Não que decidir seja fácil; muitas vezes, a angústia chega a ser física. E também não passa por ter controle de tudo. Só o mínimo mesmo.
E quando não dá, o negócio é seguir, para manter a sanidade. Lembrar que ontem já passou.

Broke me in two

Outro dia rolou uma briga daquelas. Poderia ter sido evitada? Poderia. E foi. Outras tantas vezes. Com o tempo a gente aprende(?) a falar o necessário para a paz geral, a escamotear algumas coisas para ver se morre na gente, andando com uma balança interna para lá e para cá, só ponderando. O problema é que nem sempre morre, e aí vira mágoa. E, gente, que desgraça é sentir-se magoada. Sensação de sair por aí com uma ferida aberta, tomando cuidado para não inflamar mais. Além do carimbo de trouxa na testa. Odeio me sentir magoada. Odeio. Sinto uma fragilidade pela qual não tenho paciência.

E aí que naquela noite saiu de mim. Até comecei a falar com jeito, segurando o barraco, mas claro que não durou muito. E o que vem depois, espreitando na porta da briga, se acertando ou não, é a ressaca da briga. Outra nhaca. Outra possibilidade de mágoa.

Então que o momento seguinte foi de pensar racionalmente. A situação é esta, os caminhos são esse e aquele. O que sobrará de tal decisão será tudo e de outra tudo também. Um dissabor maior de um lado ou de outro, por um tempo que naquele momento não dava para calcular. O que vou conseguir esquecer e o que levarei comigo. O que enterrei de vez.

Dois dias depois, chorei um rio e passou. Longa ressaca, devo dizer.

Did you ever have a moment when you
When you felt the ground move beneath you
You doubled the rhythm on my tired and lonely heart
Because ooh, you broke me in two
And am ready for the birds and bees
To fly right ’round you and me
‘Cause now I hear the song and taste the honey

Nobody’s baby

Fiz uma maratona The Fall. Terminei as três temporadas em poucos dias e, uau, a série é muito boa. Fiquei fascinada com a personagem Stella Gibson, interpretada pela Gillian Anderson. O interessante da série é que ela não está em busca somente do misógino serial killer Paul Spector, mas o tempo todo confrontando aqueles, homens, que querem colocar as escolhas dela em discussão. As escolhas sexuais, claro. O seu desejo. Os que estão ao seu lado, inclusive. As invertidas que ela dá são muito boas, mas que caralho viver com as respostas na ponta da língua, toda didática, para desmontar o comentário tosco do machista.

Machista e ressentido, digo, mesmo que redundante.

Chegou a me incomodar a relação mal explicada entre ela e seu pai, como se dali saísse a resposta para ela ser solteira e durona. Como se tivesse que ter uma justificativa para seguir sozinha e querer prender o cara. Um abuso, uma ausência, sei lá. Ela não pode ser simplesmente linda, loira, competente, sofisticada e livre. Ou nada disso e ainda livre. E com livre não quero dizer solteira, claro. Apenas inalienável em relação aos seus desejos. Ainda, de não fazer concessão para o machismo, de qualquer nível, de ninguém.

It’s a matter of fact
I expect I can tell you that
I say what you need is a good little soldier
Well, I guess you better look again
Well, you know, I’m nobody’s soldier
I’m a bonafide captain

I ain’t nobody’s baby
I ain’t nobody’s fool
I ain’t nobody’s baby
Get yourself a new one
Get yourself a new one

 

Beautiful

Há dias em que acordamos e tudo parece lindo na gente, da cabeça aos pés. Que autoestima da porra que bate. Ah, como eu gosto da sensação de me sentir bonita. Gosto muito porque não é sempre. E porque não cresci podendo dizer ou escrever, fora de casa, o quanto me sentia bonita.

Pensei nisto observando as adolescentes da TL no Facebook, são várias. E vários também. Mas vou falar delas. Notei que colocam selfies com certa regularidade, algumas com caretas e outras não, e comecei a prestar atenção nos comentários. Elas se elogiam. Elas incentivam a outra a se sentir bonita.

Ontem uma delas trocou a foto do perfil, acompanhada de um verso de música com uma mensagem motivacional de praxe, e de repente aquela enxurrada de amigas comentando. “Me add no whats”, dizia uma delas. Menina, o tanto que eu ri não está registrado. Não apenas fazem torcida para a autoestima da amiga, como tiram sarro das frases de xaveco. Não há razão para boicotar a alegria da amiga e ainda há espaço para rir dos relacionamentos. Achei demais. Juro.

E lembrei que na minha adolescência, qualquer dessas demonstrações de afetividade com a própria imagem cairia no “ela é metida” e “está se achando”, uma censurinha pentelha que muitas vezes pegava. Hoje elas se acham mesmo, que barato. E torço para que esta seja a chave para que, em grupo, se fortaleçam individualmente, e não se machuquem, não se escondam, que não odeiem seus corpos. Sinto uma alegria tremenda com esta turma. E é bem possível que eu diga o quanto me sinto bonita hoje porque elas abriram e, principalmente, porque não deixam fechar esta porta.

You’ve got to get up every morning with a smile on your face
And show the world all the love in your heart
Then people gonna treat you better
You’re gonna find, yes, you will
That you’re beautiful as you feel

 

Não mexe comigo

[Para Ana Julia]

– BANDO DE VAGABUNDOS!

Gritou um garoto na porta da escola ocupada. Virei num susto. Temi por quem estava lá dentro. Foi recebido com gargalhadas, estava de piada.

Repete rindo o que se lê nas caixas de comentários. Está certo. É a representação que os comentaristas que saem de seus bueiros babando palavras vazias merecem. Chacota. Não propõem nada. Não defendem nada. São apenas contra qualquer ação. Poderiam viver quietos, escorar no dia, esperando o que tem para hoje. Invisíveis. E disto não acusaria, há dias em que assim vivo. Não é o caso. Zumbis. Estão febris de impotência.

Onde vai valente?
Você secou, seus olhos insones secaram, não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira.
Teus ouvidos se fecharam à todo som, qualquer música, nem o bem, nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe.
Você pisa na terra mas não sente, apenas pisa.
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano.
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma.
Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo.

 

Dia Branco

Hoje não vou escrever muito, não. Estou exausta. É dia de PEC 241. Vou deixar estes poucos versos, de uma música linda, que provavelmente é sobre casamento. Mas vamos ampliar este termo, des-heteronormatizar. Tire a imagem de um book fotográfico de sua cabeça. Esqueça a cerimônia e pense nos dias, na rotina. Nem precisa ser romântico, apenas que seja amor, aquele teu amor que só você sabe. Que seja sobre parcerias, sobre contar com alguém que olhe para os absurdos dos dias e confirme para você que estamos num delírio coletivo sim. Que, de fato, abriu-se um bueiro e está na hora de subir nas mesas. Juntos.

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar